O Dilema da Cadeira

Ultimamente, venho percebendo na clínica de reabilitação que frequento, pessoas procurando evitar ao máximo o uso de uma cadeira de rodas para se locomover, porque a enxergam como uma espécie de “derrota pessoal”. Eu tinha uma mentalidade parecida, e por isso fiz esse relato sobre a minha experiência vivida nesse tema e espero que o que vou escrever aqui te ajude a passar por esse “dilema” e escolher o que é melhor para você. 

TUDO TEM SEU TEMPO

Eu sempre acreditava, até os meus 21 anos, um retrocesso utilizar cadeira de rodas. Talvez por ter uma cabeça mais jovem, tinha um pouco de preconceito. O certo era que, como a minha doença é degenerativa, o fato de eu me “equipar” com uma cadeira, seria assumir que a ataxia estava progredindo e que eu estava sendo derrotado.

Para ler o depoimento que escrevi sobre a Ataxia de Friedreich, enfermidade na qual sou diagnosticado, clique em “A Doença Vista Com Outros Olhos”.

NA FACULDADE

Como sempre tive muitos amigos na faculdade que frequentava (Mackenzie-SP), utilizava eles como “bengalas humanas” lá dentro. Para chegar até a sala, sempre no período matutino, eu conseguia parar o carro dentro do campus (que parece uma cidade de tão grande!), quase na boca do prédio T – onde eu cursava Administração, e meu pai (ou meu irmão depois de completar 18 anos) – que ficavam no volante, me ajudavam a entrar na aula.

Prédio T, onde eu cursava Administração no Mackenzie.

Sempre dependendo de ajuda dos outros para me locomover e fazendo um esforço incrível para continuar  (o que chamava a atenção, sobretudo dos meus professores, que repetidamente me exaltavam pelo exemplo que eu era), fui levando assim durante quase todo o curso. Entrei com 17, saí com 22 anos. A cada semestre ia ficando mais difícil. Mas eu segui firme, sem pensar em desistir nem por um segundo.

No último ano, quando apresentei meu TCC, nas vésperas da copa do mundo de 2014, resolvi finalmente começar a utilizar a cadeira de rodas, por conta de uma situação desesperadora, e logo percebi que se eu não fosse tão teimoso e começasse a usá-la antes, a minha vida teria sido muito mais fácil e produtiva. Vou contar agora como essa escolha aconteceu:

BANCO DE MADEIRA

Confesso que demorei um pouco para tirar minha carta de motorista. Na verdade, se dirigi cinco vezes na vida é muito. Tenho até um carro adaptado, mas acho o transito de São Paulo um tanto estressante e prefiro evitar. Enfim, fiz as aulas práticas, e quando chegou o dia da prova final, no Detran próximo ao shopping Aricanduva, fui com o meu instrutor, um cara super gente boa que me tornei amigo, e realizei com sucesso a prova. Nessa época eu andava apenas com auxílio de outra pessoa e não conseguia sequer levantar de uma cadeira sozinho. Assim que terminei, ele me levou até um banco de madeira (o único lugar que tinha para sentar lá), uns 30 metros distante de onde estava concentrado o evento, e ele disse para eu esperar, que quando concluísse o trabalho (de orientação para os demais futuros motoristas), ele viria me buscar.

O ESTOPIM

Ele demorou exatas três horas no serviço. Quando eu estava metade desse período sentado, com uma dor terrível na bunda, só me veio a ideia de que eu precisava de algo para ganhar independência. Completado o tempo total, eu estava completamente desesperado e todo dolorido. E isso foi o estopim para eu começar a utilizar a cadeira de rodas.

Já ficou 3 horas seguidas sentado em um banco de madeira? É terrível!

Na semana seguinte fui até a loja comprar a cadeira. É lógico que teve alguns “contras” depois do uso constante dela, como o fato de eu não conseguir andar mais com auxílio e perder um pouco de massa muscular nas pernas (graças a Deus estou progredindo nas fisioterapias – em breve terá uma publicação sobre isso que considero uma “façanha”), porém a independência e liberdade que adquiri foram infinitamente mais impactantes e me abriu novos horizontes e um mundo de conquistas (e mais seguro também – porque eu caía muito antes e poderia ter fraturado algum membro do corpo). Cresci muito depois que aceitei mesmo as minhas limitações – em TODOS os sentidos, até mesmo na questão da espiritualidade (clique aqui para ler o texto que escrevi sobre a sua importância).

Eu tive que passar por uma situação de desespero para mudar a minha mentalidade, e espero que esse relato possa te ajudar de alguma forma se você, com alguma deficiência, passa pelo mesmo dilema que passei.

Tudo tem o seu tempo, é verdade. Mas escrevi essa minha história porque quando eu estava relutando sobre a utilização da cadeira, ao ler um relato desses, estou certo de que iria rever as minhas escolhas.

E lembre-se sempre:

“QUANDO ALGUÉM JULGAR O SEU CAMINHO, EMPRESTE  A ELE SEUS SAPATOS.”

Só aquilo que a gente precisa pra crescer nos acontece.

Afinal, estamos aqui para evoluir, concorda?


COMParTilhar:

Um comentário sobre “O Dilema da Cadeira

  1. Que texto lindo meu filho!!!
    Lembro bem desse dia!!!
    O instrutor disse que eu não poderia ir com vcs pois iam vários e não caberia
    no carro.
    Vc me ligou desesperado mãe vem me buscar que esqueceram de mim.
    O lugar era no Aricanduva muito longe de casa, fui até a auto escola e de lá ligaram para o instrutor que disse que já ia te pegar.

Não tem Facebook ou prefere o anonimato?